Índio: o Guarda-Vidas, o Mestre, a Lenda : 1917 a 1976

Esse sempre foi o parâmetro considerado necessário para analisar ou valorizar um Guarda-Vidas. Os Guarda_Vidas do Corpo Marítimo de Salvamento sempre se orientaram por essa bússula, onde O Índio era o Norte. Bravura e altruímo são os pilares dos Guarda-Vidas. E o lema : “A qualquer hora, com qualquer tempo, em qualquer mar!”

Sebastião David Cavalcanti- Índio, nasceu no dia 06 de janeiro de 1917, no agreste cidade brejo de madre de deus, em Pernambuco. Filho de José David e Isabel Peixoto Cavalcanti, família com 12 filhos, sendo 4 irmãs e 8 irmãos.

Sua trajetória para chegar ao rio de janeiro foi quando saiu de sua cidade natal aos 14 anos de idade, por motivo das dificuldades de sobrevivência local. Despedindo-se de sua mãe e de sua irmã maria (a mais velha), rumou a pé até Caruarú a uma distância de 25 km. No mesmo dia pegou um trem para recife, calculando umas 5 horas de viagem. Lá chegando, um tanto desnorteado começou a perambular pela cidade que lhe era totalmente estranha, pois nunca estivera numa cidade grande. Sua mãe mandou-o procurar um tio, seu irmão Cicero, e que o encontrando sentiu-se mais seguro, perdendo a angústia do desconhecido e lá permanecendo por 5 dias, pois seu tio lhe dissera que estava convocado pelo exército e que partiria para são paulo. Assim sendo Sebastião propôs a seu tio também viajar com ele, pois não sabia que rumo tomar, e, combinou com este se infiltrar no grupo de convocados, pois estes partiriam de navio para são paulo.

Aportando no rio de janeiro, na praça Mauá, Sebastião resolveu ali ficar. De pronto divisou um senhor com uma carrocinha ambulante e entendeu de pedir-lhe emprego, o qual para sua surpresa foi prontamente aceito para pequenos serviços, pois o ambulante ao mesmo tempo em que lhe teve simpatia, com certeza também ficou penalizado com sua inocência e situação, pois nada mais lhe pediu a não ser trabalho.

Dormindo e comendo ao relento, embaixo de lonas e da carrocinha do ambulante. Ali ficou por meses e, nas horas vagas, saia para conhecer a cidade e procurar trabalho em melhores condições, pois sabia do perigo que corria naquela deplorável situação. O próprio ambulante o instruía e ensinava os tipos de transporte que deveria tomar (bondes), induzindo-o a ir na direção de botafogo, nos bondes leme ou Ipanema, os pegando na galeria cruzeiro, hoje edifício avenida central na avenida rio branco.

Conta que conseguiu seu verdadeiro e primeiro emprego numa pensão na rua da passagem n° 79, em botafogo, a qual necessitava de um cortador de lenha, serviços gerais, limpeza e etc. Ali permaneceu de 1932 a 1935. O dono da pensão era um oficial do exército que servia no 3° ri na praia vermelha, de nome João Batista

Que o convidou a servir a pátria. Explicou-lhe então que não possuía documentos e que só sabia que seu nome era Sebastião, o pai josé David e a mãe Isabel, nada mais sabia informar. O oficial logo se prontificou a enviar-lhe com uma carta de recomendação ao sargento Vicente, da casa das ordens do forte duque de Caxias, no leme. Carta essa que pedia ao sargento providenciar os documentos necessários para que este sentasse praça naquela

Unidade. Foi quando Sebastião veio a possuir sua certidão de nascimento, abrindo-lhe as portas como cidadão.

Sebastião serviu, nesta unidade militar, de 01/11/1935 a 27/05/1938. Conta que ali ganhou tudo o que sonhara; casa, comida, roupa, disciplina, amigos, etc… Vindo conforme suas próprias palavras a virar gente. Fato que fiz questão de narrar, é que, já incorporado, no término do ano de 1935, este ajudou na construção da piscina do forte. Piscina esta que lhe veio a ser seu berço na natação, ocasião em que fiz ambiente com os instrutores de educação física de nomes: sargentos Fioriamante e Vanderley.

Nesta época a firma construtora estava com dificuldades para instalar o sistema de bombeamento (tubulações) da água do mar para a piscina. Achando que a pessoa indicada para auxiliar neste serviço junto ao mar, seria o Índio (apelido ganho no quartel), devido já ter sido observada a intimidade que possuía com este elemento da natureza pelo comandante do forte, capitão Henrique Sadock de Sá, este o chamou a seu gabinete e explicando-lhe o tipo do serviço, perguntou se este teria coragem para o desempenho da tarefa e se aceitaria. Orgulhoso por ter sido o escolhido, prontamente colocou-se à disposição dando conta da atribuição.

Começou ai o seu prestigio naquela unidade militar e o reconhecimento dos militares os quais o ovacionaram quando da inauguração da piscina e o escolheram para o primeiro mergulho. Nesta solenidade lembra que foram convidados e compareceram atletas de diversos clubes do rio de janeiro, como: João Havelange, então com 20 anos de idade, Maria Lenk e piedade Coutinho. Daí em diante Índio passou a pertencer a equipe de natação do forte. Brincando, o comandante disse a equipe que iria colocar a cama deste, dentro da piscina.

Conta ainda, que já estando bom na natação, não só treinava na piscina, quanto no mar, com o qual, não sabe por que tinha atração e sentia afinidade. Além de pegar muita intimidade com o mar no canto do leme, também praticava caminhadas até o posto 2 – lido em copacabana, e, mesmo sendo observador, rude e de pouca conversa, nestas andanças conheceu de vista: Carmen Miranda e sua irmã, Francisco Alves, Orlando Silva e outros personagens famosos na época e que frequentavam este trecho. Isto porque havendo contraído amizade com um grupo de estudantes que com ele simpatizara, e com os quais participando das caminhadas lhe mostravam as pessoas citando seus nomes.

Em princípio de 1936, um fato popularizou mais ainda o prestigio do Índio no quartel e colocou-o na crista da onda, segundo suas próprias palavras com referência ao conceito que já possuía, saindo de vez do ostracismo. Foi um afogamento no canto do leme, seu primeiro socorro a afogados:

-Repentinamente, de dentro do quartel, vê um tumulto na areia; soldados correndo em direção à praia e outros já a beira mar com uma corda, inclusive o comandante, e, lá fora no mar, um grupo de três pessoas, sendo os dois instrutores da piscina, cujos nomes já foram citados, agarrados a uma afogada. Tratava-se da esposa do subcomandante, tenente Nascimento. O grupo na areia, com a corda, não tinha quem levasse a mesma até ao afogamento.

Índio, lá de dentro do quartel, pulou o muro de uma altura de 6 metros (não sabendo como o fez sem se acidentar), correndo em direção ao mar, passando pelos companheiros ouviu uma voz ordenando que ninguém entrasse no mar, o que este ignorou e, chegando ao grupo segurou a afogada para que os companheiros conseguissem descansar.

A seguir, mesmo leigos em assuntos de socorro no mar, conseguiram trazer a vítima para a areia e qual não foi a surpresa de serem recebidos com aplausos pelos companheiros de farda bem como pessoas do público que também vieram abraçá-los, passando o bairro vindo a saber que no quartel havia um Índio salvador de vidas. Após este acontecimento pessoas do povo vinham ao quartel para conhecê-lo bem como, segundo suas palavras, passou a ser o dono do quartel.

Assim, esta foi sua primeira grande oportunidade dos horizontes para a vida; relembrando-lhe que comparava aqueles momentos com a pessoa que viera dos rincões sertanejos pernambucanos, sem eira nem beira, com uma mão atrás e outra na frente; chegando numa terra totalmente estranha e se vislumbrando com os fatos que ora estavam ocorrendo.

Lembrou ainda que no quartel conheceu os companheiros que deu baixa e que futuramente seriam encontrados no serviço de salvamento, como: Walfrido de carvalho conceição, Antônio Ferreira de Sá, Laerte de Freitas, Lima e outros.

Ainda no quartel, seu comandante lhe disse que não lhe daria a baixa a não ser quando comprovadamente tivesse arrumado um bom emprego. Os próprios professores de educação física o induziram a ingressar no serviço de salvamento, levando-o para inscrever-se na administração deste serviço que era sediado no dispensário da saúde do lido e, um ano após, este foi chamado para ser empossado e iniciar como banhista (nome que se usava na época).

Às 16:00 horas do dia 10 de maio de 1938, apresentou-se ao dr. Ismael Gusmão, então chefe do serviço que o mandou se apresentar aos fiscais de praia, João Theodoro, Isidro soares Pacheco e Alberto da Silva – nono, sendo que nono trabalhava na parte administrativa alternando com Mário Alberto Alves.

Nono mandou que Índio se apresentasse no posto 8 e que lá encontraria o companheiro olímpio de Carvalho Conceição, ocasião que Índio lhe perguntou: “o que vou fazer lá?” quando o fiscal respondeu que seu companheiro o ensinaria algumas coisas, vendo Índio que um serviço de tanta importância era falho por não haver uma preparação e treinamento para a profissão.

Daí em diante, Índio, a medida que ia crescendo no serviço de salvamento, vindo a ocupar durante sua trajetória diversos cargos de instrutor e chefia, procurava implantar modificações no serviço, sempre encontrando dificuldades para colocar suas ideias de melhoramentos no sistema, devido ao atraso, rudeza e precariedade em geral.

Índio foi transladado para os diversos postos e praias do serviço na época. Onde houvesse falta de um companheiro este era colocado e, somente em 1943, foi efetivado no arpoador em Ipanema, indicado pelo fiscal Izidro, pelo fato deste posto em qualquer maré, leste ou sul, ter “socorro de canto de pedra”, ser selvagem e ter fama de, por vezes, aparecerem cardumes de tubarões. A maioria dos banhistas (guarda-vidas), não gostavam de serem escalados para aquele local, em vista disso permaneceu ali por 10 anos, dizendo que ali fora sua faculdade no serviço de salvamento.

Observador que era, passava horas a fio, a instruir-se com os movimentos das ondas e da maré, para disto tirar proveito nos socorros. O arpoador era um local totalmente ermo, havendo dias em que sua companhia eram os ventos que sopravam e seu abrigo eram as grutas ali existentes.

Disse Índio que o primeiro chefe do serviço de salvamento

Que lhe deu crédito, e, achando que era absurdo que este ainda estivesse trabalhando na areia, podendo ser aproveitado de melhor forma devido a seus conhecimentos foi o dr Aristides Calheiros Neto, em 1953, o qual o convidou para assessorá-lo administrativamente junto ao serviço de praia, começando a aproveitar suas ideias.

Na época, os frequentadores do arpoador, autoridades, militares, etc., não sabendo o porquê da transferência de Índio, foram pessoalmente pedir explicações ao chefe do serviço, por pensarem que se tratava de punição.

A partir daí Índio passou por diversos cargos, como instrutor, chefe de equipe em cursos em outros estados, etc. Vindo a aposentar-se em 29 de abril de 1976.

Um exemplo de integridade e uma grande perda para o corpo marítimo de salvamento.

Narração do próprio em março de 2005 aos 88 anos.